Terras Primordiais. Era das Trevas. #2

Postado em Crônicas Primordiais em Janeiro 3, 2009 por João Norberto da Silva

“Ele estava no meio da tempestade, literalmente no olho do furacão, quando a Ilha da Brisa Suave caiu.
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A Jornada por ajuda. Indo até a terra dos mortos.

Antes ele havia viajado por toda a extensão das Terras Primordiais, feito vários amigos, aliados, irmãos e todos vieram em seu auxílio, mas de nada adiantou.

Apenas pouco tempo depois da chegada de deus, um grupo dos anjos e arcanjos do senhor, sua guarda de elite, com seus melhores guerreiros alados, se encaminharam para a recém-liberta ilha flutuante, que passara tanto tempo presa à boca de um vulcão e que gozava a tão pouco tempo de sua liberdade, flutuando ao sabor dos ventos das Terras Primordiais. Exato meus pequenos… Nada de Paraíso ou essa idiotice pregada por deus…

Voltando para nossa história… Novamente me faltam palavras para descrever a batalha entre os anjos e a nova terra a ser conquistada.

O número de invasores era tamanho que, por um momento, formaram uma enorme sombra cobrindo quilômetros da Ilha, até que eles saíssem da formação e começassem seus ataques.

Cada um dos anjos era por demais poderoso, com suas armas flamejantes e disparos místicos, que eles diriam mais tarde se tratar de energia do cosmo, e seguiam causando estragos imensos nas fileiras dos Guerreiros dos Céus, matando todos que ousassem se colocar diante dos enviados de deus.

Em meio à carnificina estava o Vento Celestial que, junto a seus antigos e novos colegas, voava pelo campo de batalha, derrubando quantos inimigos surgissem diante de si.

Por um momento parecia que os heróis venceriam, mas foi somente por um momento.

Quando estava para derrubar mais alguns invasores, Vento Celestial foi gravemente ferido pelo ataque sorrateiro daquele que é conclamado pelos fiéis de deus como o maior dentre todos os arcanjos…

Aladiah… Aquele maldito monstro…

Com o seu machado ele cegou um dos olhos do guerreiro dos céus, que acabou por cair em direção da terra, sendo novamente golpeado pelo traiçoeiro oponente, só escapando da morte certa pela intervenção de sua amada, a elfa Wilwarin.

Em Serenidade, principal cidade da Ilha, várias pessoas rezavam ao redor do Cristal das Alturas, do mesmo modo que haviam rezado quando a cidade estivera em perigo no passado, mas dessa vez suas orações não adiantaram.

Um grupo imenso de arcanjos desceu dos céus, usando suas armas para destruir toda a área ao redor do cristal e, quando todos pousaram no que restara da praça, agora repleta de restos de corpos, eles começaram a disparar contra o, como eles chamaram, objeto pagão de adoração.

Com o cristal destruído a Ilha começou uma terrível queda.

O estrondo resultante do momento em que a Ilha chocou-se com o chão pôde ser ouvido e sentido a muitas milhas de distância… Parecia um dos sinais que antecedem o fim da criação…

Apenas com o esforço dos maiores magos de lá ao transferir seus poderes para a nova regente, Velvën, uma pequena parte da ilha e alguns habitantes puderam ser salvos.

Nunca vou me esquecer dos verdadeiros urros de ódio que o Vento Celestial despejou contra os novos inimigos, quando ele finalmente descobriu os restos da casa de seus pais.

Como estava muito ferido, perdendo os sentidos e ficando assim por vários dias, o funeral dos dois foi conduzido pelos colegas do guerreiro.

Ele permaneceu em Lemarin, na terra de sua amada, fortalecendo seu corpo e espírito e aguardando chegar o momento da desforra.

E, segundo os oráculos do reino dos elfos do mar, esse momento finalmente chegou.”

- Já lhe disse meu jovem, não posso e nem devo pensar em te levar comigo…

- Mas eu posso ser útil! Gostaria que o senhor me aceitasse como seu escudeiro! Eu poderia cuidar de tudo o que o senhor precisar… Quero aprender com o maior e melhor guerreiro como levar a justa retribuição a deus e seus fanáticos…

- Desculpe meu jovem… Esse grande guerreiro já não existe mais… Hoje eu apenas sigo meu caminho, focado na vingança… Nem de longe sou um exemplo a ser seguido… Quanto menos ser acompanhado… Trouxe você até aqui para que ficasse à salvo da perseguição da igreja de deus… Em nenhum momento pensei em ter algum escudeiro…

- Mas… Mas Kidkapton me contou sobre a queda da Ilha da B…

- Por favor… Não fale sobre isso em minha presença… Peço realmente que deixe para lá suas ambições de se tornar um guerreiro… Torço ainda que, ao final da batalha que se avizinha, guerreiros já não sejam mais necessários…

- Mas…

- Sem “mas”… E mesmo que eu aceitasse você não poderia me acompanhar…

Dito isso Vento Celestial se concentra e pouco a pouco o jovem elfo acompanha a imagem do guerreiro à sua frente ficando mais e mais etérea até que o mesmo parece se desfazer em uma brisa, como se nunca tivesse estado ali.

- Sim… – Kidkapton se aproxima do jovem elfo, pousando uma de suas mãos no ombro deste. – Ele chama essa capacidade de “Onda Whizzeran” em homenagem a um de seus amigos, que acabou morrendo no ataque à Ilha… Venha garoto… Vamos que eu irei contar essa história para você…

Enquanto o bardo abraça o rapaz pelos ombros, levando o mesmo para um grupo de casebres ali perto, o jovem elfo olha rapidamente para trás, em sua mente dançam as possibilidades de para onde o guerreiro dos ventos possa estar indo.

Numa rua não muito longe do esconderijo dos rebeldes, a rua Jardins dos Anjos, ou Rua das Tentações, como é chamada pelos moradores locais, um Cardeal acaba de sair de um dos decadentes prédios.

- Como assim “Não vou pagar”? – Uma mulher de rosto cansado e carregado de maquiagem, com roupas mínimas e apresentando vários hematomas pelo corpo, ganha as ruas indo atrás do servo de deus. – Você ficou comigo pelo dobro de tempo que a maioria dos meus clientes!! E olha o que você me fez!! Quem vai me querer toda roxa assim e…

- Mulher!! – O cardeal se vira e coloca sua CrossDeath a poucos centímetros do pescoço da mulher, calando-a de imediato. – Se quiser viver para mais um dia de “labuta” vai ficar quieta e se contentar por ter tido o privilégio de ter ficado com um grande servo como eu… Os ferimentos talvez a ajudem a ver a luz e se afastar dessa vida de pecado e luxúria…

- Você fez tudo isso comigo… – Ela dá um passo para trás e mostra mais ferimentos em seus braços. – E eu sou a pecadora?!! Ora seu…

- Agora chega sua rameira!!! – O cardeal gira sua arma e prepara para desferir um golpe que cortará a mulher ao meio e ela, para o maior prazer do outro, ergue os braços numa tentativa desesperada de se defender. – MooorrraaaAAARRRGGGHHH!!!!!!

Para a surpresa da mulher seu atacante é erguido do chão pelo que parece ser um pequeno furacão para, logo em seguida, ser lançado com violência contra uma parede próxima, caindo no chão totalmente sem sentidos.

O vento enfraquece e logo a rua volta ao silêncio de outrora, deixando a mulher a sós com seu agressor e então ela se abaixa ao lado dele, acariciando-o por todo o corpo até chegar onde ela queria. Logo ela se ergue com uma bolsa de onde pode-se ouvir o tilintar das peças de ouro e, sem olhar para trás, corre em direção de algum lugar onde ela não poderá ser encontrada.

Saindo da região dos bairros mais miseráveis é possível perceber uma mudança gradativa e berrante no visual ao redor conforme o centro do Paraíso vai surgindo, as ruas ficam mais limpas, os prédios mais altos e impressionantes, as estátuas dos anjos, arcanjos e santos de deus começa a aparecer mais e mais, até tomarem conta de toda a arquitetura.

A imagem do Pontífice Superior também se espalha, sempre com seu sorriso apaziguador, prometendo todas as maravilhas da vida sob o jugo de seu deus.

Quase vazias no começo do dia, agora as ruas estão cada vez mais cheias de cardeais, funcionando sempre como os olhos e o machado do Pontífice, sempre disposto a eliminar de imediato as ameaças à sua religião e ensinamentos, enquanto o povo procura disfarçar os medos e a raiva pela dominação que estão sofrendo.

As pessoas que permanecem próximas à torre chamada de Céu, o lar de deus, sentem um vento tão forte passando que muitas delas quase são lançadas ao chão, assim como as armas de alguns dos Cardeais responsáveis pela segurança dos portões do local.

O que ninguém parece perceber é a raiva por detrás das ações daquele vento que, sabendo não poder fazer frente aos inimigos, pára de atacá-los e toma o caminho mais rápido para a saída do Paraíso, não sem antes derrubar outros Cardeais e servos de deus que entram em seu caminho.

Pouco a pouco as construções da cidade vão diminuindo e ficando mais simples até que o cenário urbano vai dando lugar à área florestal que deus mantém ao redor do Paraíso, onde seus fiéis podem desfrutar de “suas” criações, deixando de lado a informação de que muitas dessas árvores estavam ali centenas de anos antes das primeiras civilizações se iniciarem.

Ninguém, entretanto, desafia a palavra de deus.

Ainda assim a floresta agora parece não ter mais vida. Antes era verdejante e cheia de animais, mas agora parece desprovida de toda a vida de outrora, ainda que as árvores continuem enormes, mesmo elas parecem estar definhando aos poucos, provavelmente não durarão mais dois anos.

O motivo é a atual emissão de dejetos vindos do Paraíso. Todos os dias os enormes canos dão passagem ao lixo da cidade, que é jogado em rios próximo, muitos dos quais já incapazes de manter seres vivos e a fumaça que bem do que os invasores chamam de fábricas, onde são manufaturados todos os itens de conforto para os fiéis, começa a envenenar os céus próximos da cidade.

Depois de uma longa viagem a floresta volta a diminuir, dando lugar a uma região onde até o Sol parece ter dificuldades de surgir, por causa das pesadas e eternas nuvens de tempestade, que cobrem o local onde a Ilha da Brisa Suave encontrou seu fim.

A destruição se estende por vários quilômetros repletos de destroços e restos do que outrora foi um dos mais belos reinos das Terras Primordiais. É uma área repleta de histórias de fantasmas, criadas para assustar crianças e espantar curiosos, ajudando à Igreja a manter seus fiéis acreditando em suas palavras, de que a invasão nada mais é do que uma tentativa de elevar os antigos moradores a um novo patamar de civilização.

Avançando por um trecho cujos destroços parecem ter sido dispostos com um propósito e o mesmo logo se mostra, vagarosamente o vento pára, dando lugar, pouco a pouco ao guerreiro conhecido como Vento Celestial.

Ele permanece parado, com uma expressão triste no rosto, diante de um túmulo, que ele nem ao menos pôde ajudar a construir.

O túmulo de seus pais.

Ele se recorda do ataque de Aladiah, o mesmo que o deixou fora de combate, que matara seu falcão Rapnun e que o impediu de ajudar a seus pais.

- Ainda sinto tanta falta de vocês… – Abaixando a cabeça ele faz uma prece a seu deus, Washun, para que eles encontrem o caminho para o reino dos ventos eternos e que finalmente alcancem a paz que lhes foi negada em vida. – Agora preciso avançar… Ir na direção de Romero

O guerreiro ajeita seu manto, percebendo finalmente o frio que se abate sobre o local, toca uma última vez na pedra do túmulo de seus pais e começa a se afastar caminhando a passos lentos, pensando no local para onde ele precisa ir.

XXX

- Romero… – Kidkapton tem uma grande platéia ao seu redor, formada principalmente pelas crianças das diversas raças da Ilha da Brisa Suave, mas tendo também muitos adultos, claro que nenhum deles presta tanta atenção à história como o jovem elfo recém-chegado ao santuário. – A grande necrópole erguida sobre os restos da Ilha da brisa Suave é o reino de um dos grandes Lâminas Prateadas, que lá ficou para zelar pelas almas que tiveram sua existência injusta e traiçoeiramente interrompida pela invasão das hordas de deus…

DarkRavnus foi um mago guerreiro que, tendo sido derrotado por BlackStorm, um poderoso Lich, teve seu grupo de aventureiros dizimado e ele próprio transformado num morto vivo, mas, do contrário da maioria dos zumbis, que são por natureza idiotas descerebrados, cujo único objetivo na vida é se alimentar dos miolos dos vivos, Ravnus manteve, não só sua mente, como também seus poderes, evitando assim a desagradável preferência alimentícia de seus… hum… Irmãos…

Ele viajou durante anos, buscando vingança contra o Lich, até encontrar com o Vento Celestial e seus colegas. Ele então se tornou um dos Lâminas Prateadas e assim como os demais, permaneceu junto com seus amigos mesmo depois de ter cumprindo o grande objetivo de sua vida… Ou morte… Como vocês preferirem…

Até hoje sinto calafrios quando me recordo daquela funesta batalha… Se vocês pequeninos já imaginam ou imaginaram o fedor de um campo de batalha acreditem, o Conflito Negro, como chamamos a luta entre DarkRavnus e BlackStorm.

Os Lâminas Prateadas se viram em meio a um conflito entre dois exércitos que não tinham o menor medo da morte, uma vez que todos já estavam mortos, o que exigiu ainda mais dos bravos heróis.

Por fim BlackStorm acabou sendo derrotado, pego de surpresa por uma traição inesperada. Sua filha Hope, único ser vivo no reino do Lich, ficou ao lado de DarkRavnus, não apenas pelo amor, que ambos descobriram no tempo em que o herói zumbi esteve preso nas masmorras do Castelo Negro, mas também pelo modo como seu pai tratava os desmortos, como se os mesmos não passassem de armas que deveriam ser usadas em suas conquistas. Ela jamais partilhou da mesma opinião de seu progenitor.

Nós todos descobrimos que muitos outros habitantes de Romero mantinham as lembranças de quando estavam vivos e apenas queriam encontrar a paz, para poderem continuar sua jornada ou apenas para continuar desfrutando de sua situação. Muitos desses apenas consumiam carne crua de animais irracionais.

A DarkRavnus foi ofertada a coroa, mas ele rejeitou, preferindo permanecer com seus colegas até que estes também alcançassem seus respectivos objetivos de vida.

Quando o deus das trevas foi derrotado na batalha da Ilha da Brisa Suave, DarkRavnus decidiu voltar a Romero e passar o resto do tempo que Hope ainda tivesse no mundo dos vivos e toda a eternidade ao lado dela, quando sua hora chegasse.

Infelizmente, a invasão da igreja de deus mudou seus planos e ele foi um dos principais combatentes na defesa da Ilha, auxiliando muitas das almas que foram vítimas daquele dia fatídico, levando-as até Romero, onde permanecem até hoje.

A necrópole é hoje protegida por uma grande horda de desmortos e vários feitiços, o que a mantém fora da área de interesse da igreja, apesar de que eu já ouvi rumores sobre o medo do próprio Pontífice Superior, em enfrentar seres cujo medo da morte inexiste, onde suas ameaças de “castigo” por parte de seu deus soam vazias…”

- De qualquer modo Romero ainda é um lugar pouco recomendável aos visitantes cujos corações ainda batem no peito, a não ser, é claro, que se conheça os lordes da necrópole. – Percebendo que as crianças estão com feições assustadas, o bardo resolve contar outra história. – Bem pequenos infantes… Já contei como o Vento Celestial aprendeu a voar? Não? Pois bem… Vamos lá, pois essa história ele mesmo me contou… Vejamos se me lembro…

O jovem elfo, que fora salvo pelo guerreiro dos céus, se afasta da platéia de Kidkapton, imerso em pensamentos sobre os motivos que levaram Vento Celestial a desprezar tão veemente sua companhia, agora entendendo um pouco as ações do mesmo, provavelmente o herói o estava protegendo outra vez.

Ainda com a mente fervilhando, ele resolve caminhar mais uma vez por toda a extensão do refúgio, logo ele conheceria cada centímetro daquele local.

E isso era por demais importante para ele.

XXX

Poucos minutos de caminhada separam Vento Celestial da entrada principal da necrópole e logo o guerreiro se depara com os enormes portões negros, ornados com imagens de ceifadores, corvos e todo tipo de animal agourento que se possa imaginar. Uma visão que realmente cumpre sua principal função: afastar aqueles que ainda estão vivos.

- Hum… DarkRavnus, você não muda mesmo… Um portão assim é bem coisa sua… – Conforme ele caminha mais alguns passos logo vê os dois zumbis que guardam os portões da Necrópole.

- Puxa… Não acontece nada aqui heim?

- É fato… Um tédio de morrer…

- Você sempre fazendo esse tipo de comentário… Se eu fosse mais deprimido acabaria me suicidando, com você me lembrando minha atual situação…

- Você já está morto… Por que não tenta? Pelo menos assim as coisas se agitam e… – Finalmente os dois guardas percebem a aproximação do visitante e se levantam rapidamente, ajeitando as armaduras e brandindo suas foices – Opa! Quem vem lá?!!!

- Um visitante que procura ter com vosso rei.

- Nem Lorde DarkRavnus, nem Lady Hope nos avisaram de visitantes, ainda mais algum com o coração ainda pulsante… Portanto dê meia volta e sobreviva para contar que esteve literalmente às portas da morte.

- Sinto muito, mas não pretendo voltar sem falar com seus governantes… Sou conhecido como Vento Celestial e…

- Isso não me interessa nem um pouco… Eu sou George, este é Andrew e somos os guardiões de Romero… Novamente te aviso forasteiro… Vá-se embora e nunca mais volte…

- Como eu já disse… – Enquanto fala, Vento Celestial estende uma das mãos e sua arma surge aos poucos para logo ele a empunhar e apontar para os dois guardas. – Preciso falar com DarkRavnus e farei isso, nem que seja necessário enfrentar todas as hordas de Romero.

- Mas como é petulante… Andrew, dê cabo dele…

- Heim? E o que você vai fazer?

- Vou sentar aqui e lhe ajudarei caso seja necessário, mas aposto que você não precisará de ajuda em um caso tão simples…

O som de um corvo pode ser ouvido ao longe, enquanto o zumbi se aproxima do guerreiro. Vento Celestial permanece impávido, com Rapnun em repouso ao lado de seu corpo, pelo menos até o guarda começar a correr, erguendo perigosamente sua foice acima da própria cabeça e desferindo um golpe certeiro contra o invasor.

George mal consegue ver o que acontece, só tem tempo de olhar impotente o corpo de seu colega ser cortado ao meio. As pernas de Andrew se debatem de um lado, enquanto ele grita, tendo seu tronco tão longe da parte de baixo de seu próprio corpo.

- George!!!!! Me ajuda!!!!!

- Desgraçado… – O zumbi que ainda está inteiro retira uma pequena corneta de seu cinto e então ela a sopra. – Agora quero ver se você é tão bom assim…

Em resposta ao horrível som, várias mãos cadavéricas começam a brotar do chão, como árvores amaldiçoadas e, em poucos minutos, um grande contingente de zumbis está cercando o Vento Celestial, que ergue sua espada, pronto para o combate que está prestes a começar.

- Guardiões!!!! – George se prepara para ordenar o ataque e, ao mesmo tempo em que os zumbis forçam o guerreiro a se afastar de Andrew, ajuda o amigo a se afastar do local. – Não se preocupe amigo… Esse desgraçado irá pagar… ATAC…

- O que está acontecendo aqui?!!!! – Vento Celestial, ao reconhecer aquela voz, baixa sua arma, fazendo-a sumir e dando graças por não precisar lutar. – George, Andrew… Expliquem-se… Agora… E ai de vocês se eu não gostar do que vocês disserem…

- Me-meu Lorde… E-eu… – Desajeitadamente George derruba seu partido companheiro, que cai no chão xingando-o. – De-desculpe Andrew… E-eu…

A cena seria cômica se não fosse tão tristemente patética, com o guarda tentando ajudar o colega e, ao mesmo tempo, tentando arranjar uma desculpa para dar a Lorde DarkRavnus, que acabara de chegar, com Kroace, seu corvo, que é praticamente um dos olhos do mago, devidamente empoleirado num dos ombros.

- Chega! Retirem-se todos! – Seguindo as palavras do senhor de Romero, todos os zumbis se colocam a escavar novas sepulturas. Vento Celestial pode jurar ouvir um ou outro resmungo dos mesmos. – Quanto a vocês dois…

- Meu amigo… Se possível for eu gostaria que eles não fossem punidos… Foi também culpa minha e minha arrogância chegar sem aviso e esperando ser reconhecido de pronto… Seus guardas fizeram um ótimo trabalho guardando os portões de seu reino.

Os dois zumbis escancaram seus dentes podres num horrível sorriso, ambos balançando positivamente as cabeças.

- Pois bem… Retornem a Romero e peçam para que o pobre Andrew seja refeito

- Sim meu senhor… És grandioso meu senhor… Muito obrigado meu senhor…

Depois de vários minutos finalmente os velhos amigos ficam a sós e então se cumprimentam com um longo abraço.

- Ruan… Puxa… Você está realmente diferente…

- Já você continua o mesmo… Talvez apenas com uma aura mais… Real…

- Nem vem… Apenas ajudo um pouco a Hope… Ela sim é a verdadeira realeza…

- Claro, claro… Mas infelizmente essa não é uma visita social…

- Sim… Eu já imaginava quando Kroace percebeu o que acontecia aqui e veio me avisar da balbúrdia… Então… É chegada a hora?

- Eu acredito que sim… A igreja de deus já amealhou muito poder e por falta de oposição estão descuidados… Ajudando o Kid eu venci com relativa facilidade três cardeais…

- Conhecendo você e sabendo por quanto tempo deve ter treinado, imagino que eles não eram oponentes medíocres… E quanto aos demais?

- Segundo os oráculos de Lemarin eu precisava encontrar você primeiro… “Aquele que conhece os caminhos da vida e da morte deve se unir aos ventos para que, juntos possam trazer a ferocidade necessária à nossa causa”.

- Hum… Confesso que esse parece comigo… Bem… Preciso avisar minha esposa para preparar as defesas de Romero e me despedir adequadamente… – Vendo que o outro hesita em acompanhá-lo DarkRavnus faz a pergunta que sabe que seu amigo ainda não está inteiramente pronto para ouvir. – Quer vê-los?

- Eu… E-eu acho que… Eu… Posso?

- Claro… Me acompanhe… – Eles atravessam os portões de Romero e caminham lado a lado, o mago zumbi não consegue deixar de reparar no modo como seu amigo está nervoso, olhando para os lados e claramente não gostando do modo como a cidade parece. – Não se preocupe… Cuidei para que ambos permanecessem como você se lembra…

- Eu… Sinto muito… É que é bem desconcertante…

- Eu sei…

As ruas de Romero são escuras e aparentemente cheias de destroços, mostrando ser tão morta como seus habitantes, as poucas árvores ainda de pé nada mais são que cópias retorcidas de árvores de verdade, com seus galhos ressequidos se erguendo aos céus. Zumbis, fantasmas, sombras, criaturas mortas de todos os tipos andam livremente e não atacam Vento Celestial apenas por que este permanece na companhia do lorde DarkRavnus.

- É aqui… – Eles param numa casa que destoa do restante, aparentando estar limpa e bem cuidada. – Voltarei em breve, mas tenha o seu tempo. – Dito isso o mago zumbi se retira.

O guerreiro dos ventos não imagina o tempo que fica parado diante da casa, mas assim que toma coragem, ele respira fundo e entra.

Quando Ruan vê os dois espíritos que ocupam a casa, seus olhos imediatamente se enchem de lágrimas conforme os mesmos se aproximam, visivelmente emocionados e ele mal consegue balbuciar um cumprimento:

- Mãe… Pai…

Enquanto isso, no castelo real de Romero, DarkRavnus arruma tudo o que acredita que vai precisar, quanto conversa com sua esposa:

- Se ele acredita que está na hora, então não tenho motivos para duvidar minha amada…

- Sim… Mas pelo menos leve uma parte de nossos exércitos…

- Não será preciso… Você sabe que um campo de batalha sempre me fornece todo o exército que eu porventura venha a precisar… Além do que, assim que eu for avistado a igreja pode finalmente enviar suas forças sobre Romero… Aproveitando que estou ausente…

- Sim… Certo… Como sempre seu ponto de vista é o mais sensato… Só não queria ficar nessa incerteza…

- Tem medo que eu morra?

- Bobo… – Os dois se abraçam e em seguida, ignorando a urgência, se amam, sabendo que pode ser a última vez.

- E então? – Momentos depois, quando DarkRavnus se aproxima da casa onde os espíritos dos pais de Ruan estão morando, ele percebe o amigo parado do lado de fora. – Você chegou a entrar?

- Sim… Nós conversamos muito… Eu te agradeço por estar zelando por eles… Quando tudo acabar eu voltarei e então cuidarei para que seus espíritos alcancem a paz que eles merecem…

- Pois bem… Já me despedi de Hope e lhe entreguei minha pedra. – Enquanto permanece na janela do palácio, acompanhando a partida de DarkRavnus, Hope tem em mãos um pequeno diamante negro, fonte da essência de seu amado e com a qual ele pode ser revivido, caso seu corpo seja destruído em combate. – Vamos?

Antes deles começaram a caminhar, no entanto, uma algazarra ali perto chama a atenção de ambos.

- Senhor!!! Meu lorde!!!

- Grandioso Rei das trevas!!!

Eram os zumbis George e Andrew, os guardas dos portões de Romero.

- Mas o que vocês podem querer agora?

- Mestre… – Os dois se ajoelham aos pés de DarkRavnus numa exagerada reverência. – Nos leve com o senhor!! Não servimos para ser guardas e devemos nossas vidas ao senhor!!!

- Bem… Não bem nossas vidas… Como você é burro Andrew… Sorte que nosso senhor nos entendeu… Por favor… Nos permita essa honra!!!

- Oh, bem… – Os dois zumbis ficam com as cabeças encostadas, “caprichando” em seus horríveis sorrisos. – Certo, certo, mas saibam que enfrentaremos inimigos muito poderosos… Nem mesmo eu sei se voltarei… Ainda assim querem me acompanhar?

Os dois balançam positivamente as cabeças, outra vez de forma exagerada, sem encontrarem palavras para agradecer a seu mestre pela honra que este lhes estende e logo se colocam em posição de marcha, seguindo um pouco à frente de DarkRavnus e Vento Celestial, fazendo com que os habitantes da necrópole deixem o caminho livre.

- Bem devotados não é? – Um longo suspiro é a única resposta do mago zumbi. – Preciso perguntar a você sobre algo que meus pais me falaram e que eu não entendi bem…

- O que foi?

- Hum… Eu não sei bem se tem algum significado, mas você sabe o que vem a ser… Neijyn-Zalla?

DarkRavnus faz um movimento negativo com a cabeça, mas permanece em silêncio, pensando sobre aquela estranhamente familiar palavra, algo que o faz se recordar de quando foi vencido por BlackStorm. Durante a verdadeira peregrinação que ele fez na terra dos mortos, antes de retornar como um zumbi.

De qualquer modo ele sabe, em seu íntimo, que Neijyn-Zalla é algo por demais importante, algo que eles devem descobrir o significado o mais cedo possível.

A vitória ou a derrota para as forças de deus podem depender disso.

Fim.

Terras Primordiais. Era das Trevas. #1.

Postado em Artigos em Janeiro 3, 2009 por João Norberto da Silva

“E foi assim que tudo aconteceu, meus bravos! Sem nenhum exagero ou qualquer outro artifício de linguagem!
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Tudo começou quando um guerreiro da outrora bela Ilha da Brisa Suave saiu pelas Terras Primordiais para encontrar a cura para sua mãe enferma.

Em seu caminho ele se encontrou com vários guerreiros, todos com corações tão destemidos quanto os dele e cada um com uma missão particular. Acabaram por perceber que seus destinos estavam entrelaçados, vindo a viajar juntos e juntos enfrentaram diversos perigos.

Ao longo do caminho muitos alcançaram seus objetivos, mas ainda assim permaneceram junto com os demais, estreitando ainda mais seus laços de amizade.

Foi a mão do destino que terminou por fazer o guerreiro dos céus descobrir que a cura estava no vulcão, que existia debaixo da Ilha da Brisa Suave e então ele e seu grupo voltaram até onde a jornada dele havia começado, bem no momento em que o antigo deus das trevas finalmente retornava do limbo a que fora enviado pelo grande Washun, deus da vida e dos ventos.

Peço perdão aos senhores, mas faltam palavras para esse pouco talentoso bardo que vos fala, a fim de fazer justiça àquela verdadeira guerra, mas é fato saber que ao final da mesma, entre mortos e feridos, o deus negro foi derrotado para sempre e finalmente parecia que a paz havia chegado às Terras Primordiais.

Apenas parecia, infelizmente.

Poucos meses se passaram desde o final da Guerra Divina, como a batalha ficou conhecida, aliás, tínhamos até um feriado para comemorar a data, mas estou divagando…

Enquanto todos estavam aproveitando a paz, a mesma foi interrompida pela chegada de algo no mínimo inusitado: Um enorme obelisco desceu dos céus durante uma noite fria de inverno e permanece até hoje no local onde tocou o solo pela primeira vez.

Logo enviados de todos os reinos viajaram até a estranha construção e foram recepcionados pelos primeiros Cardeais que foram vistos em nosso mundo. Nenhum desses emissários retornou para suas terras, sendo conhecidos hoje em dia como os primeiros “convertidos” à nova religião que os visitantes nos empurraram goela abaixo.

As primeiras missões evangelizadoras partiram do obelisco dias depois do desaparecimento dos emissários, alguns acreditam que foi o tempo que eles levaram para descobrir todas as nossas fraquezas e, em alguns meses, o poder do deus único e todo poderoso deles abrangia boa parte das Terras Primordiais.

Do alto do Céu, como ficamos sabendo ser o nome de sua torre, deus observa a todos os seus servos. Pelo menos é o que seus evangelizadores pregavam, transmitindo as leis de deus, todas devidamente interpretadas pelo Pontífice Superior, seu maior servo, sempre frisando em seus sermões que a bondade de deus é sem limites.

Bem como sua cólera, para os que não se convertiam.

Usando de aparelhos até então nunca vistos, capazes de fazer frente as mais poderosas magias, logo reino após reino caía sob o jugo da Igreja e tão rapidamente quanto a invasão começou as Terras Primordiais, ou Paraíso, como os invasores a rebatizaram, foi dominada tendo apenas poucos bolsões de resistência, como o reino dos elfos do mar e o deserto por detrás das Muralhas Eternas, na antiga região onde antes havia vida em abundância.

Pois assim age a igreja do deus único… O que não conquista, ela destrói…

“Mas e os heróis?” talvez vocês possam estar se perguntando… Eles tentaram… Ah! E como tentaram, mas as promessas da igreja, quando não bastavam apenas sua violência ou os subornos, acabaram por esmagar todas as ofensivas dos heróis, forçando-os a se afastar…

E assim passaram-se mais de vinte anos… Muitos dos jovens de hoje nunca ouviram falar sobre as maravilhas das Terras Primordiais, ou sobre seus grandes guerreiros e heróis, por isso bardos como eu ainda resistem ao jugo da igreja e continuamos a espalhar a verdade!

Mas não se preocupem meus bravos!!! Os ventos da mudança estão soprando, pois sei que, no horizonte, os antigos heróis estão novamente se erguendo, sim… Pois não há tirania que não atraia as forças da liberdade, não há mal eterno que não seja punido pela luz do bem…

Por isso ouçam as palavras de Kidkapton, meus bravos!!! Os heróis do passado estão voltando e é por isso que sempre contarei sobre suas façanhas…


Confrontando a palavra. A volta do Guerreiro dos Ventos.

-… Sim meus bravos!!! Cá estou eu para continuar a falar sobre os verdadeiros heróis das Terras Primordiais!!! Sim, Terras Primordiais e não essa idiotice de “Paraíso”… Vou contar sobre os Lâminas Prateadas, o último grupo de heróis que nossa terra teve, antes da invasão de deus e seus homens “santos”… Vou contar sobre o cavaleiro dos céus, a guerreira das águas, o estudioso das artes negras, o senhor dos trovões, o mestre das teias, o desmorto honrado, o sábio centauro, a senhora dos vampiros e seu consorte, o arqueiro das chamas… Contarei como o grupo se formou e como venceram o deus negro… Tudo começou na bela e saudosa Ilha da Brisa Suave e…

- Ah! Cala a boca!!! E pára com essa babaquice de “meus bravos”!!

- É isso aí!!! Tá pensando que aqui é como nas tavernas antigas, seu velho louco?

- Isso! Nós viemos aqui beber e não ouvir essas blasfêmias!!!

O Cabeça de Javali é um bar localizado em Soukatsu, a pior região do Paraíso, no distrito quarenta e nove, onde os trabalhadores braçais e os demais párias da sociedade vivem.

Esse setor é coberto sempre pela sobra da cidade dos escolhidos, aqueles que abraçaram o evangelho dos visitantes, cuja pedra angular é a adoração do deus único e todo poderoso, que a todos observa do alto do Céu, sua alva e brilhante torre de marfim.

Cabeça de Javali mantém o nome das antigas tavernas, fato que ajudou Hungarion a atrair uma vasta clientela entre os antigos, como são chamados aqueles que ainda estão vivos depois da Grande Chegada.

Em momentos como esse, em que um dos maiores freqüentadores do bar e também aquele que mais se mete em encrencas, começa a relembrar os velhos tempos, que o dono do local começa a se arrepender de sua decisão.

- Desce da mesa, Kidkapton… Pelo amor de deus!!

- Qual deus? Com certeza não o que eu adoro… Aliás, todos deveriam conhecer o grandioso Washun, deus dos Ventos e da vida! Ele que derrotou o deus negro e que, com seu último sopro de vida, criou a grandiosa Ilha da Brisa Suave e…

- Pára com isso velho!!! Todo mundo sabe que essa ilha é só uma lenda!!! Alguém chame os Cardeais!!! Esse porco está blasfemando e me impedindo de ter um pouco de paz!!!

- Vem Kidkapton… Desce daí já!

- Mas eu… – Finalmente o velho bardo se deixa levar pelo dono do bar, ao perceber que sua platéia estava menos receptiva e muito mais agressiva do que de costume. – Afinal, o que está acontecendo com o mundo Hun? Não existe mais ninguém que queira se lembrar de como tudo era antigamente? As aventuras… Os deuses e toda a vida, que se espalhava até onde a vista pudesse alcançar?

- Olha Kid… Você sabe que só velhos elfos imortais como você, ou os das antigas raças, lembra dessa época… Se continuar falando assim você vai acabar sendo denunciado à milícia do santo evangelho e…

- Ptu… – O bardo cospe em desafio à ameaça sobre a qual seu amigo fala com tanto medo. – Esses desgraçados não me metem medo e… Hun? O que foi? Eu…

A frase do bardo fica no ar e quando ele volta seu olhar para a porta do bar, percebe o motivo de não apenas seu amigo, mas também todos os demais presentes ficam em total silêncio de repente.

Três figuras entram no local, todos com longos mantos negros, ornados com detalhes vermelhos, os rostos cobertos totalmente por uma máscara, também negra, com o desenho estilizado de uma cruz vermelha. Eles trazem em suas mãos direitas as CrossDeaths, enormes armas em forma de cruz, mostrando que são verdadeiros Cardeais, os enviados pela igreja de deus para punir os infiéis.

Eles julgam e executam aqueles que ousam blasfemar contra a santa igreja. Sem apelações, ou sobreviventes.

Pelo menos até hoje.

- És Kidkapton? – A voz que chega aos ouvidos do bardo é áspera, como se saísse causando dor da provável boca que ninguém sabe se os Cardeais têm por debaixo de suas máscaras. – És aquele que ousa proferir tantas blasfêmias e…

- É ele sim meu senhor!!! – Um jovem de aparência suja se aproxima, ajoelhando aos pés do Cardeal que se encontra diante do bardo, aparentemente o líder do trio, e então o jovem começa a falar desesperadamente. – Fui eu quem os chamou!!! Por favor me aceitem em vossas fileiras e…

- Hum… – O Cardeal usa sua arma para erguer o rosto do jovem e com as mãos afasta os longos e desgrenhados cabelos do mesmo, revelando orelhas com suas partes de cima terrivelmente cortadas, uma tentativa desesperada de esconder o fato de ele pertencer a uma das raças proibidas no Paraíso. – Hum… Mesmo com tais lacerações, obviamente feitas para disfarçar vossa descendência, está claro que és um elfo, uma das criaturas cuja existência por si só já é uma afronta ao nosso senhor todo poderoso… Cardeal Austerion?

Sem dizer uma só palavra o Cardeal que estava à direita de seu líder se adianta e começa a arrastar o jovem elfo, segurando-o pelos cabelos.

Nesse momento a porta do bar se abre e dessa vez o pequeno sino da porta soa, de um modo que não fizera na presença dos Cardeais, e uma pessoa entra, todo envolvido em um longo manto marrom.

Sua face está coberta por um capuz e quando ele fala, qualquer um dos presentes percebe se tratar da voz de uma pessoa que, mesmo tento sofrido todos os castigos do inferno, ainda assim mantém as forças para seguir em frente. Os mais ajuizados já começam a se espremer num dos cantos do bar, quando o recém-chegado acaba por ficar diante de Austerion.

- Se afaste cidadão! Esses criminosos serão executados na rua, afim de não sujar esse estabelecimento…

- Vejo um velho e um garoto… Ambos parecem bem inofensivos… Quais seriam as acusações?

- Nenhuma que seja de vossa conta… Portanto, mais uma vez… Saia da frente… – O Cardeal comete seu primeiro erro, ao colocar a mão no peito do recém-chegado.

- Você não pediu “por favor”… – Sem qualquer aviso uma brisa começa a ser sentida dentro do bar, uma brisa que vai rapidamente aumentando de intensidade.

Na rua diante do Cabeça de Javali um grupo de curiosos, que haviam começado a se juntar por causa da chegada dos Cardeais, precisam correr, pois logo a vidraça do bar é estraçalhada, quando Austerion a atravessa, caindo violentamente no chão.

O manto vermelho se abre, por causa dos movimentos rápidos do recém-chegado, mostrando os típicos trajes de um guerreiro de tempos passados: Uma túnica azul escura, onde se destaca um símbolo que lembra uma águia, um cinturão dourado que traz, além de algumas bolsas, uma fivela com pequenas asas, o braço direito é quase todo recoberto por uma armadura prateada, enquanto o outro exibe faixas que vão da mão até a altura do ombro.

Ele tem apenas um olho, o outro parece ter sido gravemente ferido e está cego, uma cicatriz vai de sua bochecha até se perder por entre os longos cabelos e, mesmo com os inimigos achando que ele pode ser uma presa fácil, ele trata de mostrar que isso está longe da verdade.

O segundo Cardeal se lança ao ataque. No primeiro giro da CrossDeath, para erguer a imensa arma sobre sua própria cabeça, ele destrói algumas mesas próximas e no movimento seguinte, ao descrever um arco na direção do recém-chegado, deixa uma verdadeira “cicatriz” no teto do bar.

Os presentes desviam o olhar, não querendo ver o resultado de tal ataque, mas todos se surpreendem com o característico som de metal se chocando, o que faz todos olharem novamente para a luta.

O Cardeal fica com o corpo visivelmente tremendo, por causa do esforço que está fazendo, enquanto seu adversário se mantém um pouco abaixado, com uma das mãos parada, em posição como se estivesse segurando alguma arma, deixando todos confusos, mas não por muito tempo.

O vento que continua a mover seu manto começa a se concentrar nas mãos do guerreiro e, pouco a pouco, surge uma estranha espada que, com sua lâmina encurvada e o metal de um azul da cor do céu, mantém a arma do Cardeal contida. Nesse momento alguns dos presentes percebe um brilho surgindo nas costas da mão direita do guerreiro e quando o brilho cessa é possível ver a imagem de uma pequena espada.

- Que… – O Cardeal tem dificuldade para falar, devido ao esforço de manter sua arma contra a de seu oponente. – Que tipo… De espada é… Essa? Eu… Nem vi você desembainhá-la…

- Isso por que ela está sempre comigo… Mas não numa bainha… – O guerreiro usa sua mão livre para erguer melhor seu manto, mostrando de fato não possuir um lugar para guardar sua espada. – Rapnun nunca me abandona, permanecendo sempre comigo, como o ar que me rodeia…

- O… Quê? – O Cardeal não consegue compreender como seu inimigo permanece falando tão tranquilamente, enquanto ele mesmo mal consegue manter a força de seu ataque. – Co-como vo-você…

- Vocês três foram designados para a pior parte da cidade, onde apenas os párias residem, um lugar que não exige nenhum Cardeal de poder elevado, portanto não é nenhuma surpresa eu conseguir conter seu ataque tão facilmente… Agora, confesso que é uma pena sua arma ser destruída desse modo…

- O quê? AAAAARRRRGGGHHHH!!!!!!!!!!

O guerreiro parece nem se mexer, enquanto o Cardeal tem seu corpo lançado para trás, parando apenas numa das paredes do bar, ao passo que as lascas que restam de sua arma, que foi totalmente destruída, caem lentamente numa chuva de metal.

- E quanto a você? – O guerreiro finalmente se ergue e aponta sua arma na direção do último inimigo ainda de pé. – Nem pense nisso.

O Cardeal que restara de pé se mantém atrás do bardo, com a lâmina da arma encostada no pescoço deste, pretendendo usá-lo como refém para poder sair do bar sem ser atacado.

- Nem pense em me atacar, cavaleiro dos ventos… Sim… Todos os líderes eclesiásticos, mesmo os de poder baixo como o meu, que você salientou a pouco, conhecem todos os inimigos da igreja, mesmo que esses mudem seus rostos e roupas… Ou mesmo as armas… Deixe-me sair e esse maldito blasfemo aqui não irá se ferir…

- Você será o único que conseguirá falar com seus líderes… Por isso não foi atacado ainda, afinal eu preferiria que você conseguisse voltar para eles andando com seus próprios pés, mas pelo visto eles terão de mandar alguém para recolher você e seus amigos daqui… Será que posso saber, ao menos o seu nome? Detesto derrubar meus inimigos sem saber quem são…

- E-eu sou o Cardeal Alancar Tyker e… – Um vento irresistível afasta a arma do pescoço do bardo ao mesmo tempo em que ergue e joga seu agressor contra o teto – AAARRRGGGHHH!!!!

- Pedi apenas o seu nome… Vamos embora Kidkapton… Antes que os amigos deles apareçam… Ei! Você! É o dono desse estabelecimento? – Com a afirmativa muda de Hungarion, que permanece protegido atrás de seu balcão, o guerreiro pega uma pequena bolsa em seu cinto e joga da direção dele. – Aí tem ouro suficiente para reparar os danos, claro que eu não contaria para ninguém de onde ele veio…

Ele ajeita então seu manto, recoloca o capuz sobre a cabeça e, junto com o bardo, começa a caminhar para fora do bar. O jovem elfo fica apenas alguns instantes parado, mas logo o homem que acabou de salvar sua vida olha diretamente para ele.

- E você? Vai ficar parado aí? Essa demonstração da “gratidão” da igreja já não foi suficiente? – Sem pensar uma vez sequer o rapaz se levanta e logo está junto dos outros dois.

Em seguida eles deixam o local, exatamente quando as forças eclesiais começam a chegar, prendendo várias testemunhas para interrogatório.

Algumas horas depois, nos esgotos do Paraíso, os três chegam a seu destino…

- Muito obrigado Ruan… Essa foi por pouco…

- Um dia você vai arranjar confusão de verdade Kid… E eu não estarei por perto para salvar a sua pele… Aliás, e quanto ao garoto que detesta suas orelhas?

- Hum? Ah! Sim… Como é o seu nome mesmo meu jovem? Creio não ter ouvido enquanto me entregava aos Cardeais…

- Hã… É… Hum…

- Nome deveras exótico não é grande guerreiro dos ventos?

- Deixa ele em paz velho amigo… Quando se sentir mais à vontade ele falará… Ah! Finalmente chegamos…

Os três param de frente a uma das paredes do esgoto, igual a qualquer outra pela qual já passaram, pelo menos aos olhos do jovem elfo, mas assim que Ruan se aproxima, os olhos do rapaz acabam por se arregalar.

- Que os ventos sob meu comando, dos quais sou tanto mestre como servo, abram a passagem que nos leva ao tempo que foi e que um dia será novamente.

Ao comando das estranhas palavras do guerreiro, uma abertura começa a surgir na parede, revelando que, por mais impossível que possa parecer, um imenso vale verdejante existe nos esgotos do Paraíso.

- E então garoto… Você vem ou vai ficar aí parado de boca aberta?

Sem conseguir formular uma resposta, o rapaz se põe a correr e logo alcança seu salvador, enquanto a abertura se fecha por detrás deles.

Logo eles chegam a uma vila, com belas casas construídas ao redor de frondosas árvores, tudo em completa harmonia e então crianças de várias das antigas e hoje maltratadas raças de seres das Terras Primordiais correm até o guerreiro e o bardo, cercando-os e disputando acirradamente pela atenção dos mesmos.

O jovem elfo permanece com os olhos arregalados, tentando não perder nenhum detalhe daquele lugar fantástico, que ele acreditava existir apenas nos sonhos de velhos como seus pais e avós, mas logo seu devaneio é interrompido quando sente um toque gentil em uma de suas orelhas, o que o faz saltar de susto.

- Desculpe… Não quis te assustar… É que eu apenas queria… Por favor, me deixe… – E antes de o garoto formular uma frase, de tão impressionado que está com a beleza da elfa que permanece diante de si, ela faz suas orelhas, há muito mutiladas, crescerem novamente. – Pronto assim é melhor… Que mundo é esse, onde jovens elfos têm suas orelhas cortadas desse modo?

- Calma minha amiga… – Ruan se aproxima dos dois. – Vamos deixar nosso jovem conhecer a hospitalidade dos seres livres… Nós precisamos conversar… Velvën

- Como é?!!!! – Logo depois de ouvir sobre o fato de que o próprio jovem fizera aquilo consigo mesmo, para evitar o típico preconceito dos novos “senhores” do mundo, a bela elfa fica extremamente irada. – Mas que absurdo!!! Ah! Se eu pego esse tal de deus ele ia ver o que é bom e…

- Hahahahahahaha!!! Nem mesmo a vida mansa na corte élfica conseguiu melhorar o seu temperamento… Infelizmente, por mais que eu concorde com você, precisamos ser cautelosos… Hoje eu consegui os últimos detalhes que precisava antes da minha viagem…

- Eu queria ir com você… – Velvën se aproxima e imediatamente as lembranças do passado dos dois voltam à mente do guerreiro. – Tem certeza de que não é possível?

- Infelizmente não minha bela rainha… Trouxe Kid para que ele possa te auxiliar na defesa desse nosso refúgio, caso vocês sejam descobertos… As buscas do Clero por usuários de magia estão cada vez mais minuciosas… Precisamos ter cuidado… Por isso vou sozinho atrás dos outros…

- Conseguiu mesmo a exata localização de cada um deles?

- Não tão exata, mas o suficiente… Parto hoje à noite…

- Temos tempo para uma despedida como antigamente? – O olhar sério do outro é uma resposta mais do que suficiente. – Ei! Uma garota precisa tentar não é?

Os dois seguem rindo até onde o grupo de crianças está reunido, ouvindo mais uma das histórias de Kidkapton.

Longe dali, num dos andares inferiores do Céu, os Cardeais derrotados no bairro de Soukatsu passam também por um interrogatório, todos devidamente colocados nas Cadeiras da Virtude, aparelhos de tortura que são alimentados pela dor onde, de tão agonizantes, a maioria das pessoas submetidas a eles não consegue proferir a menor das mentiras.

O Pontífice Superior entra na sala de interrogatório, envergando sua longa e alva batina, toda ornamentada de cruzes douradas, no rosto uma expressão da mais pura paz. Ele se coloca diante dos Cardeais, sem nem mesmo prestar maior atenção ao fato de que um deles não se move mais, por já estar morto, se voltando para o Inquisidor-Chefe.

- E então?

- Responda a vossa santidade Alancar Tyker!!! Quem foi o seu atacante!

- Juro p-por deus todo poderoso que… N-não foi… Outro senão… O Vento Celestial!!

- Certo… Certo… – O Pontífice Superior se aproxima se seu fiel servo e coloca as mãos sobre os olhos deste. – Descanse agora meu devoto… – Num movimento rápido do Pontífice Superior, o Cardeal tem seu rosto afundado dentro da própria cabeça, morrendo imediatamente. – Descanse em paz…

- NNNNÃÃÃÃÃÃÃOOOOOOOOO!!!!!!!! – O Cardeal Austerion só pára de gritar quando desmaia por causa da dor que está sentindo e do horror da situação.

- Ele ainda está vivo? – Diante da afirmativa de um dos demais Inquisidores, o Pontífice Superior limpa calmamente sua mão na roupa do homem desmaiado e começa a se dirigir para a saída. – Reconverta suas memórias, mostrando que o rebelde foi o verdadeiro culpado pela morte de seus colegas… Que a tragédia e o amor de nosso deus lhe dêem força para ele se reerguer ainda mais forte.

- Sim, vossa Santidade…

Enquanto se apressa para subir as escadas que levam aos seus aposentos, pretendendo se lavar para sentir-se menos sujo por ter tocado no Cardeal, o Pontífice Superior analisa a situação sussurrando para si mesmo:

- Então eles finalmente estão fazendo seus movimentos… Há tempos os tais “heróis” não faziam uma aparição tão pública… Sim… Mas isso não importa… Que reúnam seus exércitos, pois de nada adiantará… Tenho meu deus comigo e ele me protegerá… Lancem seus ataques como ondas enfurecidas, pois a defesa de meu deus é como a mais perfeita das barreiras… Venham pecadores… Mostrarei-lhes dores que nunca sequer imaginaram existir e meu deus se banhará em vosso sangue…

Amém.

Apenas o começo!

Sejam Bem Vindos!!

Postado em Artigos em Janeiro 3, 2009 por João Norberto da Silva

Olá leitores! Eis aqui o primeiro post desse novo site!

As Terras Primordiais fazem parte do mesmo planeta que Aupaba e é aqui onde suas aventuras irão acontecer.

As histórias atuaisfalam de personagens que já tiveram suas origens contadas há muito tempo, mas que podem ser lidas tranquilamente, sem ter que se apegar muito ao passado.

Tudo mudo nas Terras Primordiais depois da chegada de deus e sua igreja, mas vocês irão saber dos detalhes a partir do próximo post.

 

Boa leitura!